VI Mostra premia os melhores curtas de 2009

“Reverso” e “Muro” foram os grandes vencedores da noite, que premiou histórias nordestinas.

TEXTO: Adriano Fernandes

Cena de Reverso, Melhor Curta segundo o Júri Popular

Cena de "Reverso", Melhor Curta segundo o Júri Popular

A noite de domingo, 25 de outubro de 2009, escreveu um capítulo especial na recente trajetória do cinema nordestino. São daquela região os três curtas-metragens que mais se destacaram na sexta edição da Mostra Curta Pará Cine Brasil, cuja proposta é exibir em uma semana o que de melhor vem sendo produzido no cinema nacional. Durante cinco dias, abrilhantaram a tela do cinema Olimpia no centro de Belém, 20 filmes, entre longas e curtas-metragens, premiados em festivais nacionais e internacionais.

Os últimos serão os primeiros.

Na Mostra Competitiva de Curtas, 15 produções nacionais disputaram os votos do público e do Júri Oficial, formado por membros da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). O grande vencedor dessa categoria foi “Muro”, do cineasta pernambucano Tião, último curta exibido na Mostra, na noite de sábado, 24. Com imagens do sertão nordestino, intercaladas pela corrida espacial do Homem à lua e um muro de barro que impede a locomoção de alguns personagens, “Muro”, segundo o Júri Oficial, é um convite à reflexão. “O júri privilegiou o tipo de cinema que faz o espectador pensar, que o instiga a refletir sobre o que o diretor quis dizer com as imagens expostas na tela”, argumentou Marco Antônio Moreira, presidente do Júri, logo após o anúncio da decisão.

Seguindo essa tendência, o Júri Oficial conferiu uma Menção Honrosa ao baiano “Cães”, dirigido e roteirizado por Adler Paz e Moacyr Gramacho. Livremente inspirado na obra do escritor e fotógrafo mexicano Juan Rulfo, o filme conta a história de um pai que carrega seu filho ferido nos ombros, em busca de ajuda. Fotografado em preto e branco, “Cães” chama atenção pelas belas imagens do sertão nordestino e por seus personagens fortes.

Cães_02 Inácio criança

A voz do povo…

Subindo o litoral brasileiro em direção ao Norte, aportamos em São Luís do Maranhão, de onde vem o grande vencedor da VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. “Reverso”, de Francisco Colombo, caiu nas graças do público com sua história simples, bem contada e seu plano sequência. Em pouco mais de cinco minutos, o filme narra o encontro de um assaltante com seu assaltado que, de vítima, se reverte em algoz. O assaltante, negro, interpretado por Gilberto Martins, aborda o personagem do ator Antonio Saboia, branco, estudante universitário que filmava um bêbado no centro de São Luís. Na agonia diante da possibilidade de perder sua câmera, o estudante resolve negociar, apelando para uma pretensa igualdade entre os dois: “A vida não é mole pra mim também não. No fundo, nós dois somos iguais”. É a deixa para o assaltante desferir duras palavras que tocam, indiretamente, na constituição da estrutura social brasileira. A questão socio-racial está presente na narrativa do curta, já que, segundo Francisco Colombo, “o assaltante sintetiza, em poucas frases, uma crítica ao sistema capitalista, e toda a história do povo negro, do povo africano que foi arrancado e trazido para cá para ser escravo.”

Eleito Melhor Curta pelo Júri Popular, “Reverso” embolsará a quantia de 1000 reais, prêmio destinado a esta categoria. Em segundo lugar, no julgamento do público, ficou o também maranhense “Pelo Ouvido”, de Joaquim Haickel, cineasta, escritor e deputado estadual que esteve em Belém durante a Mostra. Em terceiro, aparece “Homens”, documentário que conta histórias de coragem vividas por homossexuais do interior nordestino. O filme de 22 minutos é uma produção capixaba e dirigido por Lucia Caus e Bertrand Lira.

A noite da premiação ainda contou com a reexibição dos curtas-metragens vencedores e a exibição inédita em Belém do longa pernambucano KFZ-1348, um documentário que reúne histórias de oito donos de um automóvel Fusca, fabricado em 1965.

Confira os vencedores da VI Mostra Curta Pará Cine Brasil:

Júri Oficial
Melhor Curta-metragem: Muro, de Tião. (PE)
Menção Honrosa: Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho. (BA)

Júri Popular
Melhor Curta-metragem: Reverso, de Francisco Colombo. (MA)
Segundo lugar: Pelo Ouvido, de Joaquim Haickel. (MA)
Terceiro lugar: Homens, de Lucia Caus e Bertrand Lira. (ES)

A Mulher Biônica é destaque na noite de abertura da VI Mostra

Curta do cearense Armando Praça já ganhou cinco prêmios nacionais, incluindo o de Melhor Filme, em SP.

A+Mulher+Bionica+2Inspirado no conto Creme de Alface, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, o curta-metragem cearense “A Mulher Biônica” abre, nesta quarta-feira, 21, a mostra competitiva da VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. O filme de 19 minutos narra um dia na vida de Marta, uma mulher amarga cheia de problemas familiares, que procura em pequenos detalhes do seu cotidiano, algum motivo para ser feliz. Entre a promiscuidade do book fotográfico de uma sobrinha e os dissabores de uma amiga que vai ser mãe solteira, Marta encontra no escuro do cinema uma fuga de sua solidão.

Apesar de ser um filme cheio de falas, gritos e diálogos pesados, é na história não contada dentro da cabeça de Marta que “A Mulher Biônica” ganha força. Como no conto de Caio Fernando Abreu, a história se desenrola de maneira não-linear, do ponto de vista de Marta, que, andando pela cidade, rememora os prazeres e desprazeres de sua vida.

Leia o conto Creme de Alface.

Além de “A Mulher Biõnica”, serão exibidos na primeira noite da VI Mostra os curtas “O Menino Japonês“, de Caetano Gotardo (que venceu a Mostra Curta Pará em 2008) e “Reverso“, do maranhense Francisco Colombo. Depois dos curtas, o público presente ao Olympia assistirá à primeira exibição em Belém do longa “O Sol do Meio Dia”, de Eliane Caffé.

Serviço.

VI Mostra Curta Pará Cine Brasil
de 21 a 25 de outubro de 2009
Local: Cine Olympia
Hora: 19:30
Ingresso: R$ 0,25 para cada dia, disponíveis momentos antes das sessões.
Programação de 21/10:
19h30
Abertura: Homenagem à crítica de cinema Luzia Miranda Álvares.
19h45
A Mulher Biônica 19′
Reverso 5′
O Menino Japonês 18′
20h30
O Sol do Meio Dia (longa)

O mais feminino dos sentidos

Filme mais premiado da VI Mostra, “Pelo Ouvido” é um tributo ao mais feminino dos sentidos.

banheiraO curta “Pelo Ouvido”, do maranhense Joaquim Haickel, será exibido nesta quinta-feira, 22, durante o segundo dia da VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. O filme conta a história de um casal que reinventa formas de amar, depois que um grave acidente deixa um deles, Charlie, cego, surdo e mudo. No silêncio de Charlie, sua mulher, Kate, procura na literatura, na música e nos telefonemas de um colega de trabalho, as palavras que o marido não consegue articular. Enquanto ele “a vê” através de seus dedos, ela o ouve através das vozes de outras pessoas.

Diz Félix Alberto de Lima, em O Alternativo:

“Pelo Ouvido é visceral e ao mesmo tempo suave e terno. Tem pegada técnica com uma linguagem universal, envolvente. São 17 minutos de uma história que surpreende, de roteiro inteligente, trilha sonora original impecável e recursos cenográficos sob medida.”

O roteiro do curta é baseado num conto escrito pelo próprio Haickel na década de 80. Numa oficina de texto ministrada pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, Haickel sugeriu que o grupo lesse um texto de autoria do cineasta americano David Linch. Ao fim da leitura, os comentários de todos apontavam naquele conto marcas da experiência cinematográfica de Linch. Mas, como ficou esclarecido mais tarde, o conto era de Joaquim Haickel, que concluiu depois da polêmica experiência: “as pessoas não estão motivadas para boas obras, mas para boas assinaturas”.

Joaquim Haickel, além de cineasta e escritor, é também deputado estadual do Maranhão, além de imortal da Academia Maranhense de Letras. Sua estreia atrás das câmeras foi na co-produção e co-dirição do curta-metragem experimental “The Best Friend – O Amigão”, produção em super-8 que conquistou os prêmios de melhor filme do júri popular e melhor filme maranhense do júri oficial, no festival de cinema e vídeo realizado pela Universidade Federal do Maranhão em 1984.

Haickel participa em Belém de um bate-papo sobre produção cinematográfica, na quinta-feira, 22.

“Pelo Ouvido” é o filme com maior número de premiações exibido durante a VI Mostra Curta Pará Cine Brasil:

01-
MELHOR CURTA-METRAGEM – Seattle International Film Festival 2009 (USA);
02-
MELHOR CURTA-METRAGEM FICÇÃO – Syracuse International Film Festival -09 (USA);
03-
MELHOR CURTA – V Ibero Brasil Cine Festival 2009  (Valência – Espanha);
04-
MELHOR CURTA DE FICÇÃO – Festival Internacional de Cine de Cartagena del Indias/2009;
05-
MENÇÃO HONROSA – Mostra de Cine Llatinoamericanà de Catalunya Lleida/ 2009;
06-
MELHOR DIRETOR  – Boston International Film Festival. Boston (USA);
07-
MELHOR CURTA INTERNACIONAL – First Glance Film Fest Philadelphia/0 (USA);
08-
MELHOR CURTA FICÇÃO – Festival Curta Natal 2008;
09-
MELHOR ATRIZ – II Festival de Curtas de Cabo Frio (RJ/ Brazil)
10- MELHOR ATRIZ – 31TH Festival Guarnicê de Cinema, MA;
11-
MELHOR CURTA DE FICÇÃO – 16 th Festvídeo  de Teresina (PI)

Assista ao trailer:

Matéria completa de Feliz Aberto de Lima, para O Alternativo (no final, o conto que inspirou o roteiro do filme)
Site oficial do curta Pelo Ouvido.

Os olhos de Capitu em documentário

O premiado “Olhos de Ressaca“, de Petra Costa, se inspira no romance machadiano para contar a história de Gabriel e Vera: Bentinho e Capitu que tiveram final feliz.
Texto: Adriano Fernandes
Foto 4
“Olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”, assim Capitu é descrita por Bentinho, personagem de Dom Casmurro, romance machadiano que inspira o amor de Vera e Gabriel. O casal é o personagem principal de um documentário sensível, misto de memória, literatura e imagens do arquivo familiar, filmado por sua neta, Petra Costa.
Juntos há 60 anos, Vera e Gabriel ainda passeiam de mão dadas. Compõem um casal que acena ao espectador a possibilidade de um tipo de casamento raro hoje em dia: o que dá certo. São a realidade que virou romance e, depois, cinema. A descrição do olhar de Vera feita por Gabriel, se utilizando da metáfora machadiana, é emoldurada pelas ondas da ressaca carioca, que traga tudo para o fundo do mar, para dentro de si. As imagens do casamento, do nascimento dos netos, das férias da familia, se misturam aos carinhos atuais do casal, para quem as palavras são coadjuvantes. São daquelas pessoas que se entendem num olhar.
Essa linguagem íntima, indiciária, se traduz na tela do cinema com a subversão da tradicional estrutura do documentário, na qual o entrevistado fala para a câmera que é o olhar do espectador. Em “Olhos de Ressaca”, nosso olhar é conduzido aos diversos cantos e encantos do amor de Vera e Gabriel, enquanto suas vozes, serenas e jamais cansadas, formam, junto à trilha sonora assinada por Edson Secco, o fio narrativo que entrelaça as memórias do casal.
Assista ao trailer:
“Olhos de Ressaca” ganhou prêmios de melhor curta-metragem nos festivais de Gramado e do Rio de Janeiro.
O filme será exibido pela primeira vez em Belém no dia 24/10, durante a VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. A sessão começa às 19h30.

Cineastas participam de bate-papo sobre roteiro e produção cinematográfica

JOAQUIM HAICKEL

Joaquim Haickel, diretor de Pelo Ouvido, curta-metragem maranhense

Os diretores dos curtas-metragens Pelo Ouvido e A Mulher Biônica, respectivamente, Joaquim Haickel e Armando Praça, estarão em Belém para a VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. Como parte da programação, eles participarão de atividades voltadas a estudantes e admiradores de cinema, da capital paraense. Também está confirmada a presença de Van Fresnot e Luiz Carlos Vasconcelos, produtora e ator do longa O Sol do Meio Dia, que estreia em Belém na abertura da Mostra, dia 21 de outubro.

No dia 22 de outubro, quinta-feira, Haickel, Van Fresnot e Luiz Carlos Vasconcelos, conversam com o público a respeito de suas experiência na realização de seus filmes. As dificuldades, os desafios e os caminhos que levam à finalização de um projeto audiovisual serão o tema do colóquio dos realizadores.

Já no sábado, 24, Van Fresnot compartilha suas experiências na produção de outro filme que será exibido na Mostra: o curta Minami em Close-up – A Boca em Revista, do diretor paulista Thiago Mendonça. Logo em seguida, Armando Praça inicia um colóquio sobre roteirização, a partir de sua experiência com A Mulher Biônica, roteiro baseado no conto Creme de Alface, do escritor Caio Fernando Abreu. O tema do bate-papo é “Da Cabeça pro Papel” e seu objetivo é dirimir algumas das principais dúvidas dos cineastas iniciantes que pretendem transformar suas ideias em cinema. As atividades acontecerão no Hotel Hilton (Sala Guará), localizado na Av. Presidente Vargas, próximo ao Cine Olympia. E entrada é franca.

Serviço
Bate-papo com Joaquim Haickel, Van Fresnot e Luiz Carlos Vasconcelos. 22 de outubro, às 17 horas. No Hotel Hilton (Sala Guará), Av. Presidente Vargas, 882

“Da Cabeça pro Papel” – diálogo sobre roteiro. Com Armando Praça. 24 de outubro, às 17 horas. No Hotel Hilton (Sala Guará), Av. Presidente Vargas, 882 Entrada franca.

Contato
(91) 3343-3567

O Sol do Meio Dia tem boa parte do elenco paraense

Texto: Adriano Fernandes

O longa-metragem O Sol do Meio Dia, da cineasta paulista Eliane Caffé foi todo rodado no Pará e conta a história de três personagens que, do interior do Brasil, partem rumo a Belém numa viagem de auto-conhecimento e redenção. No elenco, além de Chico Diaz, Luiz Carlos Vasconcelos e Cláudia Assunção, estão atores e figurantes recrutados nas comunidades paraenses onde o longa foi filmado.

Luiz Carlos Vasconcelos viveu Matuim, em O Sol do Meio Dia

Luiz Carlos Vasconcelos viveu Matuim, em O Sol do Meio Dia

No enredo, após cometer um crime passional, Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) começa uma viagem até Belém orientado por vozes misteriosas, e no caminho, encontra Matuim (Chico Diaz) e Ciara (Cláudia Assunção), duas pessoas que, por razões diversas, rompem com seu modo de vida em suas cidades de origem. A trajetória dos três se desenrola num triângulo amoroso que tem como cenário a cidade grande de Belém.

Eliane Caffé em locação no nordeste paraense

Eliane Caffé em locação no nordeste paraense

Eliane Caffé se consolidou no cenário do cinema brasileiro com seu segundo longa-metragem, Os Narradores de Javé, premiado em vários festivais. Em O Sol do Meio Dia, a cineasta mantem a marca que se tornou característica de seus filmes: a presença constante do elemento popular, marcada pelo elenco formado na região onde o filme é rodado. O objetivo, segundo a diretora, é garantir maior verossimilhança à narrativa e valorizar os profissionais locais. Por trabalhos anteriores, Eliane Caffé recebeu prêmios em festivais internacionais na Suiça, Bélgica, Canadá, França e Barcelona. Seu atual trabalho também percorrerá o circuito de festivais internacionais ao longo dos próximos anos.

Atores locais.

Quase metade do elenco de O Sol do Meio Dia é formada por atores paraenses. Cláudio Barros, diretor de elenco do filme, foi o responsável por recrutar os profissionais que deram vida aos personagens que cruzaram o caminho dos protagonistas. Segundo Barros, dos muitos filmes que usaram o Pará como locação, O Sol do Meio Dia foi o primeiro que se dispôs a conhecer de fato os atores da região: “A Eliane Caffé me disse que queria, antes de qualquer coisa, saber como eram os atores paraenses, porque isso seria fundamental para o filme, para garantir a verossimlhança que o cinema precisa ter”. Para Barros, há em Belém uma grande quantidade de atores que, apesar de não terem formação específica na área, têm a sensibilidade e a disposição de cena para fazer cinema. Além de experiência. É o caso de Bumba, atriz indígena que já trabalhou em mini-séries e novelas, e nos longa-metragens “Brincando nos Campos do Senhor” de Hector Babenco e “O Curandeiro da Selva”, gravado no

Bumba interpretando uma índia na novela A Lua Me Disse, da Rede Globo

Bumba interpretando uma índia na novela A Lua Me Disse, da Rede Globo

México, com Sean Connery. Aos 60 anos, Bumba (cujo nome de batismo é Edwirges Ribeiro) trabalhava vendendo churrasquinho na rua, quando foi convidada a fazer cinema. No filme de Eliane Caffé, Bumba interpreta a dona de um cabaré de beira de estrada. “Bumba é excelente e, apesar de não ter estudado formalmente interpretação, tem um currículo melhor que o meu”, brinca Barros.

Com menos fama que Bumba, e com uma história de iniciação semelhante, o ator Marcos Luiz Lago foi descoberto por Cláudio Barros vendendo bombons no centro de Belém. A direção de elenco já tinha feito vários testes para o papel de Tõe Gira que, na trama usa uma rabeca (um violino arcaico) construída artesanalmente por Artur (Luiz Carlos Vasconcelos). Entretanto, nenhum dos atores candidatos ao papel estavam agradando. Quando menos esperava, Barros viu naquele vendedor ambulante que trabalhava na Av. Presidente Vargas a fisionomia perfeita para o papel. Ao ser abordado pelo diretor, Marcos teve uma surpresa e disse que sempre quisera ser ator de cinema. Pela falta de tempo, Marcos não passou pela preparação de quatro dias destinada aos candidatos a atores do filme. Imediatamente, ele e o diretor de elenco foram fazer o teste. Barros conta como foi: “Pedi para o Marcos ficar atrás de um objeto do cenário do filme e, quando eu chamasse, ele deveria olhar para câmera como se estivesse em cena. Pelo jeito que ele olhou, decidi que o papel seria dele”. Tendo o aval da diretora Eliane Caffé, Marcos foi incorporado às filmagens e contracenou com desenvoltura com Luiz Carlos Vasconcelos, protagonista do filme. Barros justifica sua escolha: “Eu vi nele uma sensibilidade e uma disposição enormes pra filmar, dessas que não se encontram em atores comuns”. Marcos Lago nunca tinha atuado antes. Depois do filme, fez também o espetáculo Laquê, de direção do próprio Cláudio Barros e de Wlad Lima, que também atua em O Sol do Meio Dia.

Também fizeram parte do elenco atores de destaque no cinema e no teatro local. É o caso de Aílson Braga, que tem no currículo atuações em “Araguaya – Conspiração do Silêncio” e “Chupa-chupa: a história que veio do céu”, além de mais de 30 espetáculos teatrais. O ator, que fez o dono do açougue onde trabalhava o personagem de Chico Diaz, elogia a direção de Eliane Caffé: “O legal é que ela deu liberdade pra nós improvisarmos em cena”. Em um dos diálogos, houve espaço até para que dois personagens discussem o futebol local: “até Remo e Paysandu, que não ganham nada há algum tempo, ganharam um espaço no filme”, brinca Aílson. Segundo o ator, a expectativa para a estreia do filme em Belém é grande, já que o elenco local ainda não teve a chance de ver o resultado do trabalho na telona.

Oportunidade.

Depois de estrear no Festival do Rio, O Sol do Meio Dia será exibido na Mostra Curta Pará Cine Brasil, a ser realizada entre 21 e 25 de outubro, no Cinema Olimpia. Será a primeira oportunidade de o público paraense assistir ao filme que promete ser um dos grande destaques do cinema nacional em 2009. Para o responsável pela programação da Mostra, o cineasta João Inácio, o filme vem para aproximar o público com o que de melhor vem sendo produzido no cinema brasileiro: “Tenho certeza que o paraense vai se identificar com o que vai ser mostrada na tela, principalmente em O Sol do Meio Dia”. Além da exibição do longa, também haverá uma mostra competitiva de curtas-metragens, todos premiados nacional ou internacionalmente: “Nosso principal critério de seleção dos filmes é que eles já tenham recebido alguma premiação importante”, garante Inácio. A entrada para a Mostra Curta Pará Cine Brasil custará a quantia simbólica de R$0,25.

Chico Diaz e Luiz Carlos Vasconcelos dividem prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio

Os protagonistas de “O Sol do Meio Dia”, que estreia em Belém na Mostra Curta Pará Cine Brasil, levam o Troféu Redentor na capital carioca.

Texto: Adriano Fernandes

Luiz Carlos Vasconcelos e Chico Diaz em filmagem no interior do Pará

Luiz Carlos Vasconcelos e Chico Diaz em filmagem no interior do Pará

O último dia do Festival do Rio reservou um momento especial para os atores Chico Diaz e Luiz Carlos Vasconcelos. A dupla subiu ao palco no Cine Odeon, nesta quinta-feira (8), para receber o Troféu Redentor de Melhor Ator, por suas atuações no filme “O Sol do Meio-dia”, de Eliane Caffé. “Esse prêmio cai como uma benção na minha carreira. Foi um trabalho realizado há quatro anos, cheio de dificuldades e que representa um Brasil profundo, que não é visto. Essas pessoas ‘invisíveis’ estão representadas por meio desse troféu. Ter sido premiado hoje engrandece todas elas”, comemorou Chico Diaz após receber a premiação.

Na trama de Caffé, Chico Diaz vive Matuim, um sujeito que navega pelos rios amazônicos fugindo de rixas em sua cidade natal. Em sua viagem, o caboclo conhece Artur, personagem vivido por Luiz Carlos Vasconcelos, alguém recém-saído da cadeia que busca reconstruir sua vida em Belém. Introspectivo, Artur aos poucos vai se envolvendo na conversa de Matuim, até que os dois compartilham de momentos de camaradagem, interrompidos por um assalto à embarcação em que viajam.

Atormentados

Os personagens principais de O Sol do Meio-dia são atormentados por fantasmas do passado. Artur (Luiz Carlos Vasconcelos) tenta se redimir do assassinato da própria esposa, mas sua fama de homem perigoso o acompanha por onde passa  e ele mal consegue conviver com seus remorsos. Matuim (Chico Diaz) usa uma peruca que esconde um problema em seus cabelos, que o transforma numa figura ridícula, da qual ele sempre se envergonha. Os momentos de maior fragilidade do personagem ocorrem quando, por algum motivo, alguém o separa de sua peruca e deixa desnuda sua quase careca. Rodado todo no interior do Pará e em Belém, o longa permitiu que os atores explorassem toda a carga dramática de seus personagens, como na cena em que a dupla briga saindo de uma festa na praça do Carmo, ocasião em que os traumas de ambos vêm à tona.

Em Belém

Luis Carlos Vasconcelos confirmou sua presença em Belém para acompanhar a estreia de O Sol do Meio-dia, dia 21 de outubro, na abertura da VI Mostra Curta Pará Cine Brasil. Também está confirmada a presença da produtora Van Fresnot, responsável pela realização do filme.

Com informações do G1